Travessia Vale do Pati - 4 Dias Andaraí/Capão

Gruta do Morro do Castelo


Considerado o trekking mais bonito do Brasil e um dos mais belos do mundo, a travessia do Vale do Pati é sem dúvidas a experiência mais intensa e inesquecível que os amantes da caminhada podem ter. E não é de menos, podendo ser feita em três, quatro ou mais dias, as inúmeras trilhas espalhadas pelo vale nos direcionam aos lugares mais espetaculares e mágicos que a natureza pôde oferecer, esculpidos no decorrer de bilhões de anos e que hoje nos enchem de êxtase e admiração.

É impossível não esboçarmos um encanto genuíno diante de verdadeiras obras-primas naturais ao visualizarmos o Vale do Cachoeirão e as mais de doze quedas d'águas vistas de seu mirante em épocas de cheias. De nos sentir convidados a experimentar banhos refrescantes nas águas das Cachoeiras dos Funis e do Calixto, ou, perdermos a fala diante do incrível visual panorâmico proporcionado pela altitude do Morro do Castelo tendo o extenso Gerais do Vieira - lá longe a Oeste e o rio Pati correndo livre e ininterrupto entre os imponentes paredões rochosos que formam o grande vale no lado Leste.

Tendo três opções de travessia, escolhemos uma das "mais longas" partindo da cidade de Andaraí e tendo como destino final a vila de Caeté-Açu no Vale do Capão. Este percurso em si, feito apenas ao estilo trekking de longa distância (sem a visitação dos lugares de destaque) possui 60km de um ponto a outro. Em nosso trekking tour nos deparamos com extensas áreas planas, enfrentamos subidas e descidas íngremes e terrenos acidentados. Sem dúvidas o tipo de percurso onde a pressa não pode fazer parte do dicionário de quem o faz.
Mapa Ilustrativo dos principais pontos do Vale.










DIA 1 - DE ANDARAÍ, PREFEITURA.
Partimos da cidade de Andaraí por volta das 6 horas da manhã e o que nos esperava logo nos primeiros metros de trilha era uma longa subida que durariam quatro horas sobre a Serra do Ramalho. Houveram apenas poucos caminhos planos entre um aclive e outro, só para enganar, até finalmente chegarmos no topo da Ladeira do Império, onde tivemos um breve vislumbre do vasto vale e das casas de alguns nativos.

Não demoramos muito no namoro ao incrível visual, resolvemos descer logo rumo ao interior do pati pela famosa ladeira, foi nessa hora que nossas pernas resolveram tremer enquanto fazíamos a descíamos - fenômeno muito comum para quem passa horas forçando os músculos e tendões das pernas em longas subidas e logo depois aplica uma força inversa nas mesmas. incialmente nosso objetivo era o de pernoitar em camping selvagem antes ou após a casa do sr. Jóia, um nativo da região, não obstante como nosso progresso desde Andaraí estava a passos de atleta sem ao menos percebermos, então, decidimos esticar um pouco mais até a prefeitura.

Neste meio tempo demos uma descansada no rio Cachoeirão onde comemos uma deliciosa farofa enquanto deixávamos nossos pés merecidamente receber um choque térmico por conta de suas águas geladas, avistamos a casa de outro nativo o sr. Eduardo - de longe, e resenhamos um pouco sobre ser lá o ponto de partida, ou, trilha que nos levaria ao Cachoeirão para ser visto de sua base. Descobrimos um antigo cemitério quase próximo ao rio, passamos pela escolinha do Pati, hoje em ruínas e, vimos muitas áreas de campings bem agradáveis antes de adentrarmos pela densa floresta em direção à Prefeitura do Pati. 
Pé de Jaca

Após muitas subidas e descidas nossos corpos começaram a sentir a falta de açúcar, foi aí que surgiu a ideia de subir numa jaqueira para coletar um fruto deliciosamente doce. Após algumas beliscadas na jaca seguimos nisso rumo até encontrarmos o Poção da Árvore onde cogitamos armar nossas barracas, porém, mais uma vez decidimos castigar um pouquinho mais nossas pernas, passando direto até finalmente chegar na Prefeitura do Pati, alguns metros depois. Seguindo ao Norte da Prefeitura, fica a trilha que nos leva para a Cachoeira do Calixto, uma subida que contornar Morro do Castelo.  Infelizmente esta cachoeira não estava em nosso roteiro, porque, iríamos precisar de mais um dia para visita -la, porém, fica a dica.



Ladeira do Império 











Prefeitura - Usada pelos antigos nativos como ponto de troca de alimentos.

DIA 2 - MORRO DO CASTELO, CACHOEIRA DOS FUNIS E IGREJINHA.
Acabou virando rotina, acordávamos às 5 da matina da e começávamos a caminhada por volta das seis. No segundo dia a meta era fazer o Morro do Castelo e Cachoeira dos Funis, pernoitando na Igrejinha. Como estávamos de mochilão sabíamos que subir o Castelo não seria nada fácil, então resolvemos deixar nossas mochilas na casa de mais um nativo da região, o Seu Agnaldo, ponto estratégico mais próximo da subida quase que vertical que leva ao morro.

Com espaço para camping e com uma pequena mercearia, pode-se até tomar uma gelada e dar uma descansada antes de ascender ao Morro do Castelo. Em seu topo é preciso atravessar uma gruta com pouco mais de 500m para continuarmos na trilha tradicional que nos posiciona para os dois mirantes que lá existem, a utilização de uma lanterna é imprescindível durante a travessia da gruta. Logo em sua entrada é possível descansar tendo um magnífico visual ao alcance de nossos olhos para o registro de belas fotos.
Se estiver sem água, o melhor lugar para abastecer os cantis antes de alcançar os mirantes do Castelo é em uma mina d'água que brota dentro da própria gruta. Seguindo nosso destino até a igrejinha, ainda passamos pela Cachoeira dos Funis, possuidora de um ótimo poço para banho e revigoramento antes de encarar os quilômetros finais ate o 'base camp' da Igrejinha onde faríamos nosso segundo pernoite.
Morro do Castelo - Visto da Prefeitura
Travessia da Gruta do Morro do Castelo - Para ter acesso ao mirante.

Panorâmica do mirante do Castelo.
Visual do Mirante do Morro do Castelo.
Cachoeira dos Funis
Camping na Igrejinha



DIA 3 - O MIRANTE DO CACHOEIRÃO.
Mais uma vez escolhemos um ponto estratégico para ir de encontro ao nosso próximo destino nesta trip, o Cachoeirão. Acampamos na Igrejinha, um entreposto tradicional para os caminhantes que visitam o Pati passar a noite, seja em camping ou nos alojamentos. O local pertence ao João, um nativo que faz questão de receber bem que visita o Vale do Pati. Além de colchões o alojamento disponibiliza a um preço razoável o uso de fogões à lenha e aqueles de grade do tempo da vovó para os mochileiros que lá se encontram possam preparar seus alimentos. A estrutura ainda conta com banheiros e lavatórios, um verdadeiro luxo no meio do nada.

Trilhamos apenas com a mochila de ataque através dos campos rupestres dos Gerais do Rio Preto. O ponto positivo desses gerais é formação de seu solo. Com trechos que variavam constantemente entre o fofo das areais e o macio dos charcos, andar por este terreno foi bastante agradável.

Mesmo com áreas planas e nenhum peso sendo carregado, o percurso gerava um certo cansaço, e era preciso muita atenção nos trechos de lajedos para não perdemos a trilha. Não bastar essas adversidades peculiares ao clima e a geologia da região, tínhamos de ficar atentos ao surgimento de algumas serpentes, afinal os gerais é um habitat propício para elas, tanto que encontramos uma bela cascavel atravessando uma trilha. 

Focando agora na atração principal deste terceiro dia, o Cachoeirão, apesar de termos ido numa época de estiagem, é possível durante as cheias chegarmos a presenciar um conjunto de doze quedas d'águas brotando nos enormes paredões do Cachoeirão, um verdadeiro espetáculo. Deixamos o Mirante do Cachoeirão com uma sensação de realização sem igual, muitas boas lembranças e muitos bons ventos sentidos. No retorno à Igrejinha demos uma descansada na toca do Gavião e voltamos pela mesma trilha já com a Cachoeira dos Funis em meta para dispersarmos o forte calor que castigava. Ao chegar não demoramos muito para pegarmos uma nova trilha que leva aos Funis, mais curta e rápida. 
Mirante do Cachoeirão (Direita)

Mirante do Cachoeirão (Esquerda)
Cruzeiro do Pati
Retornando para Igrejinha
DIA 4 - MIRANTE DO PATI, GERAIS DO RIO PRETO, GERAIS DO VIEIRA E CAPÃO.
O último dia desta inesquecível caminhada teve como cenário o clássico visual oferecido pelo famoso Mirante do Pati, é de lá que visualizamos as principais trilhas que levam ao vale, tanto a trilha que parte do Capão como as que se originam do distrito de Guiné na cidade de Mucugê, que se ramificam em outras, sendo parte delas rumando diretamente para a casa de alguns nativos ilustres com o sr. Wilson e dona Raquel. O do mirante, também, que temos um panorama geral da área denominada Pati de cima que envolve os morros do Castelo, o morro do Sobradinho, o morro Manoel Victor - logo na entrada do vale e a Igrejinha, tudo isto visto do alto a uma altitude de mais de mil metros.

O mais incrível enquanto estávamos neste mirante foi a maneira em como as nuvens que tapavam todo o cenário, como uma enorme cortina fechada, abriu do nada em certo momento, permitindo a bela visão que tivemos. Em seguida seguimos pela trilha que traça os Gerais do Rio Preto, um altiplano que serve de parede entre o vale e a região Sul da Chapada. A todo o momento o tempo e o visual mudavam, uma hora nublava, outra víamos muito céu azul. Chuviscava, em seguida fazia muito sol, enfim, a visibilidade como que num passe de mágica, mudava subitamente - algo realmente incrível. Aproveitamos o tempo nublado para dar ritmo nos passos antes do Sol sair por completo.

Após encararmos a descida do Quebra Bunda, chegamos ao Córrego dos Cristais onde paramos para abastecer os cantis e dar uma descansada antes de enfrentarmos o último trecho de caminhada em direção ao Vale do Capão - os Gerais do Vieira, uma extensa área aberta e arenosa formada por campos rupestres e de altitude. No final da caminhada, saímos dos gerais e percorremos uma longa descida de mata fechada que antecedia o ponto oficial da travessia Capão a Andaraí, já no Vale do Capão, onde há uma enorme placa contendo o croqui da trilha. Exatamente ao lado desta placa, encontra-se a curta trilha que leva ao Poço Angélica e a Cachoeira da Purificação onde decidimos tomar um breve banho neste primeiro ponto, antes da longa caminhada de pouco mais de 7 km do bairro do Bomba a Caeté-Açu, o centro do Capão.

Mirante do Pati - Galera de positividade sem fim!
(Amigos que fizemos nessa jornada)

Gerais do Vieira - No centro da imagem da para ver o famoso Morrão do Capão.

Chegada ao Capão.






















Vídeo completo da travessia

Dicas:
Para quem tem experiência em caminhadas dá para fazer tranquilo esta travessia, mas vale ressaltar que existem pontos de lajedo que exigem bastante cuidado, embora a trilha seja muito batida, não existem sinalizações. Para quem tem interesse em fazer a travessia guiada, indicamos os guias da Bahia Chapada.

Na maior parte da travessia passamos por casas de nativos que oferecem uma excelente estrutura para quem não deseja montar barracas com alojamento com colchões, banheiros e cozinhas compartilhadas e mercearia para você comprar o que talvez tenha esquecido de levar ou simplesmente tomar aquela gelada.

Custos:
Salvador x Andaraí - 63,00
Capão x Palmeiras x Salvador - 10,00 + 73,00
Alimentação do grupo - 40,00 cada (para 4 dias)
Alimentação individual - 50,00 cada (para 4 dias)
Camping na casa dos nativos - 45,00 cada (total de 3 noites)
Pousada Harmonia - 25,00 (sem café da manhã - 8250.3371)
Janta no Capão - 8,00 

Realização:
AVENTURASECO
www.aventuraseco.com.br


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